Jâneo Manoel Venturini dos Santos (Bigo)

PÃO COZINHADO

Jâneo
PÃO COZINHADO

Uma história de amizade

Me lembro do cheiro, do aroma de pão recém-feito invadindo a janela de casa. Era o chamado para pular o muro e ir à cozinha da nossa vizinha, uma senhora com cerca de 70 anos, que tradicionalmente produzia o próprio pão para compartilhá-lo também com o marido, filhas e demais familiares. Uma forma bonita de se dizer e expressar o amor. Uma história

Ia até a cozinha salivando para pedir: “Dona, tem pão cozinhado?”. E presenciar aquele olhar e sorriso de alegria que ela expressava ao ver uma criança pedindo pão. O pão geralmente vinha acompanhado ou de uma geleia ou margarina, que, devido à temperatura, se derretia sobre a fatia. Como era saboroso aquele pão cozinhado, daquela senhora linda de coração. Um dos melhores do mundo! 

Sempre pedia licença ao adentrar a ante-sala da cozinha. Às vezes, o companheiro dela estava por ali. Havia um quadro enorme, daqueles antigos, do Santuário de Nossa Senhora Aparecida em cima de uma lareira. A cozinha era onde acontecia a magia, rústica, com uma mesa central, moderna na medida necessária, sem muita frescura. 

A mesa, geralmente branca de farinha. Me lembro de alguns apetrechos pendurados no teto. Era ali que se produziam, por aquelas mãos já enrugadas pelo tempo, os melhores pães, tido por mim como pães cozinhados, e não assados. 

Há tempos tinha vontade de escrever essas palavras. Como criança, essa memória afetiva ficou. Às vezes ela volta quando experimento o pão cozinhado que minha mãe faz, mas não é a mesma coisa. Com muito afeto, essa nossa vizinha me acolhia. Nunca me negou o pão. E não é porque eu não tinha em casa, era porque existia uma amizade, dessas intuitivas, sem muitas explicações e palavras entre a gente. 

Eu cresci e não fui mais pedir pão. Mas a amizade continuou. Ela sempre perguntava à minha mãe como eu e meu irmão estávamos. Nos nossos aniversários, sempre que possível, era convidada e se fazia presente. Uma vez, o companheiro e ela nos socorreram numa situação complicada, que posso contar a vocês noutro momento. Também algumas vezes a vi triste, por problemas pessoais. 

Quando adoeceu e ficou acamada, tentava ir visitá-la seguidamente. Nas correrias dos adultos, nem sempre dava. Conversava por algumas horas, vendo-a ali resistindo, vulnerável. E ela sempre lembrava do pão cozinhado. Não precisava dizer uma palavra sequer, ela lembrava, exatamente, com o mesmo olhar e sorriso de alegria ao ver quando eu chegava quando criança para pedir: “Dona, tem pão cozinhado?”


Autoria: Jâneo Manoel Venturini dos Santos 

Em homenagem a nossa vizinha.



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